Data: 19/09/1984
Acontecimento: O comício de Ronald Reagan em Hammonton, Nova Jersey, ocorreu em 19 de setembro de 1984 durante sua campanha de reeleição contra o democrata Walter Mondale.
Contexto: O episódio entrou para a história política e musical como uma das maiores gafes de interpretação da cultura pop, impulsionada pelo estrondoso sucesso do álbum Born in the U.S.A., lançado por Bruce Springsteen naquele mesmo ano.
O contexto por trás desse acontecimento se divide nos seguintes pontos principais:
1. A apropriação política de “Born in the U.S.A.”
No verão americano de 1984, a faixa-título “Born in the U.S.A.” era um hino onipresente nas rádios. Devido ao seu refrão enérgico, ritmo triunfante e à forte presença da bandeira americana na capa do disco, a equipe de campanha de Reagan (e o próprio presidente) interpretou a música de forma literal, como um hino de exaltação patriótica e otimismo nacionalista, alinhado ao slogan republicano “Morning in America”.
No entanto, a letra real da música é um protesto amargo. Ela narra as dificuldades enfrentadas por um veterano da Guerra do Vietnã que retorna aos Estados Unidos e se depara com o desemprego, o abandono governamental e a desindustrialização — uma realidade que criticava indiretamente as próprias políticas socioeconômicas da era Reagan.
2. A influência de George Will
Dias antes do comício, o influente colunista conservador George Will assistiu a um show de Springsteen e publicou um artigo sugerindo que o operariado retratado pelo cantor simbolizava os valores de trabalho duro que o governo Reagan defendia. Ele sugeriu aos assessores da Casa Branca que associar a imagem do cantor à campanha seria uma excelente estratégia para atrair o eleitorado jovem e a classe trabalhadora. A equipe de Reagan tentou, sem sucesso, pedir autorização para usar a canção oficialmente.
3. O discurso em Hammonton
Sem o aval do artista, Reagan incluiu o elogio em seu palanque na cidade de Hammonton:
“O futuro da América repousa em mil sonhos dentro de seus corações. Repousa na mensagem de esperança nas canções de um homem que tantos jovens americanos admiram: o filho de Nova Jersey, Bruce Springsteen.”
4. A resposta de Bruce Springsteen
Conhecido por suas posições progressistas, o músico não gostou de ter sua obra cooptada pelo governo conservador. Dois dias após o discurso, em 21 de setembro de 1984, durante um show em Pittsburgh, Springsteen respondeu diretamente ao presidente antes de tocar “Johnny 99” (música sobre um operário de fábrica que se desespera após ser demitido):
“O presidente mencionou meu nome outro dia e eu fiquei pensando qual seria o álbum favorito dele. Acho que não era o álbum Nebraska. Acho que ele não ouviu essa música aqui.”
Posteriormente, Springsteen proibiu a campanha de Reagan de utilizar suas músicas, consolidando aquele momento como o estopim que o forçou a assumir uma postura política muito mais explícita e pública em sua carreira dali em diante.